Por que se relacionar é tão difícil, prazeroso e necessário?

Relacionar-se exige que tenhamos abertura a conhecer e entrar no mundo interior de outra pessoa. Esta frase é simples, mas sua execução pode ser complexa. Muitas vezes achamos que conhecemos alguém, mas a vida nos surpreende. É comum que as imagens criadas pela nossa interpretação não sejam representações aproximadas do que a outra pessoa realmente vive. Na maioria das vezes, na verdade, não são mesmo.

Isso acontece porque costumamos ter muito pouco conhecimento sobre nós mesmos, então aproveitamos as relações para nos conhecer melhor. É claro que esse “aproveitamento” é um mecanismo automático inconsciente, não proposital, porque não vamos ao outro buscando nos conhecer, mas acaba acontecendo. O outro é a experiência na vida que mais me aproxima de mim mesmo, então só depois que eu tenha certo conhecimento de mim e a capacidade de dividir minha percepção com claridade é que poderei tentar começar a entender o outro.

Até lá, sou “eu” o tempo todo em minhas projeções, expectativas e interpretações.

Relacionar-nos é uma das chaves que nos define como seres humanos. 

Somos a espécie mamífera mais dependente uns dos outros. O que talvez seja o maior desafio da vida também é responsável pela experiência de maior beleza.

. . .

O processo de dar-se-conta de si mesmo é pela vida inteira.

Não é seguro que cheguemos a um “final”, uma vez que tampouco “somos” algo:

mais bem “estamos sendo”, e essa simbiose entre o nós e o mundo conforma uma construção contínua do “eu”, que a cada suspiro está se transformando em algo novo e inusitado. Mas é certo que quando sou capaz de acompanhar este processo de transformação continuada relacionar-se com o outro se torna mais realista e sincero. Não que estivéssemos mentindo antes; a maioria das pessoas, em geral, atua com a melhor das intenções. Mas a necessidade primária de autoconhecimento acaba utilizando os mecanismos da psique para si. Uma vez esta necessidade esteja atendida como processo, e não como fim, podemos dizer que nos empenhamos em nos relacionar com o outro. O seu primeiro companheiro de vida é você mesmo.

Conhecer-se melhor não termina quando você pode se dedicar realmente a outra pessoa. Pelo contrário, se intensifica cada vez mais, porque os elementos decorrentes da experiência te ajudarão a montar ainda melhor o seu próprio quebra-cabeça. O processo de conhecimento não são estágios superados, são estágios somados, onde todos farão parte da complexa conjuntura do “ser”. Assim como as experiências, os estágios de conhecimento de si e do outro se somam para fazer parte de quem você está sendo. Podemos dizer, então, que cada experiência nos aproxima um pouquinho mais do “todo”, da experiência da gota que cai no oceano. Para a gota transcender sua existência no oceano é necessário, no entanto, primeiro saber que é gota. Depois, a gota se dá conta de que o oceano não existiria sem ela, e que o oceano é uma terceira realidade, maior do que a soma das gotas que o compõem.

Reconhecer a gota que cada um somos é o nosso processo de individuação; de reconhecimento da unicidade do nosso mundo interior, do nosso sistema perceptivo, dos nossos sentimentos, pensamentos e ação. É saber que igual a você não há ninguém, e tua individualidade é necessária para o funcionamento do mundo, tuas ações são responsáveis para a manutenção da vida e do equilíbrio de muitos seres que, como tu, são dependentes de outros. Este é o baile da vida, quando estamos cansados, animados, entusiasmados ou frustrados, a música sempre continua, temos diariamente um convite à harmonia e beleza desta composição que não cansa de suspirar.

O oceano chegará para todos nós, mas isso deixamos à cargo do mistério.

Enquanto isso, bailemos. Bailemos com os corações vívidos de paixão, os olhos curiosos de aprendizado, as pernas firmes como raízes sábias e os braços prontos para voar; porque uma das poucas certezas da vida é sua infalível incerteza, porque cada segundo de alento é um convite à vitalidade, à presença e à plenitude; porque todos os seres nascem com a dádiva da felicidade, que em meio a tanto não nos exige nada para se manifestar.

Não mais que, talvez, um pouquinho de conhecimento de si e um abraço apertado.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Últimos Artigos

Espero que desfrutem da leitura : )

O sentimento na aprendizagem

Aprender é um ato natural. Estamos aprendendo o tempo todo, todo o tempo, sempre que um dos nossos sentidos é estimulado. Quando nascemos aprendemos principalmente dos estímulos externos: do que vemos, ouvimos, tocamos... Com o tempo, nosso próprio pensamento nos gera...

ler mais

8 de Março

Trabalho escutando pessoas. Já escutei de tudo sobre o dia de hoje. Que deve ser celebrado, que não deve, que existe uma maneira certa de celebrá-lo, que é indiferente.
Respeitando a diversidade de opiniões acredito ser sempre positivo refletir sobre conquistas da sociedade em direção à igualdade, liberdade e fraternidade, ideais que na França do século XVIII pareciam revolucionários, que hoje parecem óbvios, mas que estamos longe, bem longe, de praticar como sociedade.

ler mais

Você julga o seu passado?

Primeiro, a mente humana não está feita para julgar um semelhante, muito menos a si mesma. Com as experiências nós construímos a percepção e avaliamos as consequências externas e internas de nossas atitudes e escolhas, para assim continuarmos crescendo e tendo uma...

ler mais