O mito da personalidade única

Grande parte da vida é um mistério, mas brincamos de investigar, e nesta brincadeira do conhecimento inventamos caminhos de percepção para nos ajudar a entender a nós mesmos e ao outro. Quem somos e por que estamos aqui são reflexões que existem desde que o neocórtex apareceu na evolução da nossa espécie, a parte frontal do cérebro que nos permite o raciocínio lógico.

Desde então temos a capacidade de metacognição, quer dizer, observar a nós mesmos, nossos próprios pensamentos, nossas próprias emoções. Ora, se eu observo meus pensamentos, eu não sou meus pensamentos; meus pensamentos são parte de mim. Quem eu sou, então? A capacidade de observar a si mesmo é incrível, mágica, confusa, complexa e real.

A capacidade de ser observador da ação – e dos processos internos que a levam a cabo -, e não somente agente, nos dá um incrível potencial de auto regulação, podendo ser o condutor chefe das nossas ações nosso “eu” observador, e não nossas partes pensantes, emotivas, intuitivas… mas um “eu” completo e complexo capaz de ponderar. Então a primeira resposta para a grande pergunta é: Eu sou um observador, um observador de mim e do outro. E tantas coisas observamos…

Ninguém é plenamente desconhecido de si, nem plenamente consciente.

Todos pensamos que sabemos quem somos, ou temos certeza de não ter a mínima ideia. Entre estes dois polos absolutos, existe todo um universo chamado realidade.

. . .

Aqui entra a personalidade.

Eu de repente me dou conta que reajo de determinada maneira a determinada situação,

que sinto a vida desse ou daquele jeito, que meus pensamentos funcionam mais ou menos seguindo uma lógica interna… e chamo a observação desse funcionamento interno de personalidade. De repente digo “eu sou assim”, como se “assim” fosse um fenômeno estático e constante ao longo do espaço-tempo.

Esta maneira de perceber-se tem alguns problemas. Um deles é que negligencia o poder de ação do observador em si mesmo, colocando a responsabilidade apenas sobre nossas “partes observadas”. Como se o observador fosse passivo, e não agente. Ora, este “observador”, que também podemos chamar de consciência, tem a capacidade de perceber um pensamento e muda-lo, por exemplo. Ou perceber uma emoção e decidir como atuar. No final das contas, o poder de ação é comandado pela consciência, não pelo funcionamento da nossa arquitetura psíquica (mental). Acontece que por preguiça (?) ligamos o piloto automático e deixamos que as decisões sejam feitas “sozinhas” pela nossa personalidade. Deixamos de observar, nos ausentamos de nossa própria consciência. Colocamos o poder de ação em cima de algo que constantemente “está sendo”, mas alimentando a crença de que “é”. Nos identificamos tanto com a personalidade que não queremos soltá-la, e passamos a moldar nossa percepção para que a realidade se encaixe nela, e não para que ela se abra a uma realidade cada vez maior, mais inteira e completa.

Por que? Medo. Medo do vazio, do desconhecido, da responsabilidade… medo trás medo. Existe uma crença, também falsa, de que atuamos com segurança na ausência do medo. Não é verdade. O medo sempre estará aí. Atuamos com segurança na presença da coragem. Isso sim faz a diferença. Esperar que o medo passe é colocar-se no lugar de uma criança à espera que o monstro do armário vá embora. Ele não vai, ele mora dentro da sua cabeça. É com sua cabeça que você tem que dialogar, e esse diálogo quem faz é sua consciência. Então ausentar-se da responsabilidade de assumir a consciência – dá medo ter tanto poder sobre si, não é mesmo? – é uma maneira de não enfrentar os medos. Veja bem, os medos continuam existindo: você continua com medo de ser rejeitado, julgado, não querido, de falhar, de não dar certo… – você simplesmente não os encara de frente, cria artifícios para que eles passem longe da sua percepção – o que não significa, em absoluto, que eles deixam de interferir na sua vida – você simplesmente escolhe não lidar com eles, não pensar neles, não trazê-los para tua observação e aparente realidade direta.

Os medos continuam, mas no piloto automático você força a barra para eles passarem despercebidos, insistindo tanto que em algum momento fica mais “fácil”, mais automático, mais imperceptível… e a vida é tão exigente, nos cobra ter atenção a tantas coisas, pessoas e lugares… por que eu dedicaria parte da minha preciosa atenção a perceber os movimentos da minha personalidade? Para assumir o lugar da consciência? Para escolher, a cada instante, o que fazer com este mundo interior vasto, amplo e complexo? Dá muito trabalho.

Dá mesmo. Ser livre dá trabalho. Ser consciente dá trabalho. Querer mudar as coisas dá trabalho. Entender a vida dá trabalho. Mas se não fizermos isso, se não fizermos o esforço da reflexão ativa, da observação e da ponderação, viramos autômatas por escolha (não por natureza, há de ressaltar). Autômatas e reféns das nossas próprias experiências e do diálogo que elas fizeram com nossa genética, do nosso continuum processo de “estar sendo” em construção porque o diálogo com a vida não acaba enquanto há vida. Autômatas daquilo que “fizeram de nós”. Quem está no comando do barco, assim? Ninguém! O “acaso”, a “sorte”, as “intempéries”, as “fortunas” …

Assumir o papel da consciência não significa ter controle da vida e de tudo que vai acontecer. A vida é maior que você, maior que eu, maior que nós. Em suma, é e continuará sendo um grande mistério, e às vezes é saudável fluirmos com o mistério, assumi-lo, regozijar-nos nele e reconhecer o nosso lugar de não-saber… No entanto, sim podemos apostar pelo esforço de nos entendermos, pelo esforço da mudança partindo do conhecimento, sim podemos ajustar as velas quando os ventos se embrabecem, moldar nossa maneira de caminhar, nosso olhar, nossa ação no mundo em prol de um bem maior, coletivo, altruísta…

Não para ter controle…

Mas para ter paz e liberdade, que em última instância, abrem as portas ao amor.           

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